domingo, 15 de junho de 2008

Na primeira parte deste post abordei a súbita ascensão e queda daquela que poderia ter sido a primeira estrela da música Pop a ser lançada exclusivamente online, Tila Tequila. Alcançada a popularidade no MySpace, esta ex-modelo pensava que podia obter facilmente um sucesso de vendas ao lançar o seu primeiro single na loja online do iTunes sem recurso a uma companhia discográfica tradicional.

Enganou-se, de facto. Mas talvez não seja aconselhado extrapolar desta história quaisquer ensinamentos senão o facto de que no mundo da música online já não é possível fabricar estrelas como dantes. Aqui as majors já não ditam as regras do jogo. Neste campo, são redes sociais como o MySpace que funcionam como agregadores gigantescos de conteúdos mas também como plataformas promocionais para bandas. Neste espaço, não há necessidade de intermediários entre artista e público.

A razão do sucesso do MySpace

Dada a possibilidade de chegar a um maior número de pessoas, não estranha que seja quase impossível encontrar um grupo que não tenha criado já uma página por lá - os norte-americanos The Mountain Goats são, neste aspecto, uma excepção. E a possibilidade de todo o tipo de bandas, desde a que se dedica às sonoridades mais experimentais e improvisadas a um dos grandes nomes que pululam a lista dos discos mais vendidos nos EUA, poderem alojar ali as suas músicas (quatro faixas em formato MP3 para streaming) é algo que nunca poderia ter partido de uma ideia das quatro maiores companhias discográficas. Isto dá bem conta do papel cada vez mais secundário das majors e é a prova de que algo está a mudar na indústria da música. Para os grupos, a disponibilização online da sua música permite vender mais bilhetes para os concertos e é apenas isso que lhes importa. Daí a necessidade de estabelecer uma rede de “amigos” bastante vasta.

A razão do sucesso do site da News Corp. de Rupert Murdoch, está aqui. Não é por causa do design simplório, desengonçado e tosco que o MySpace se tornou um sucesso junto das camadas jovens, que têm mais tempo para ouvir e apreciar música, para comunicar com os seus artistas preferidos, ouvir as novas faixas, ficar apar das datas dos concertos, assim como descobrir outros grupos e estabelecer novas relações.

Tal como a personalidade dos seus utilizadores, cada página que visitamos é sempre uma surpresa: nunca se sabe se vamos calhar numa marcada por cores berrantes, quase foleiras ou “bregas” ou noutra completamente soturna, assemelhando-se mais a um cemitério virtual onde as campas dos mortos foram profanadas e caveiras e ossos se encontram por ali espalhados. O que importa é que todos se possam exprimir à sua maneira, podendo inserir imagens, vídeos e, claro, músicas, pois a música continua a ser um dos factores de maior investimento emocional para as novas gerações deste século. Para muitos dos adolescentes que o frequentam, o site oferece um refúgio online longe da segurança obssessiva e do controlo paternal (Danah Boyd). Sentem realmente que aquele é o seu próprio espaço, mesmo que não o seja…

Mas quem beneficia mais nesta cadeia produtiva é a própria News Corp. Com 90 milhões de visitantes por mês e um total de 40 mil páginas, o MySpace já deixou há muito de fazer juz à fama de “antro underground” com que ficou conhecido entre os mais jovens, representando hoje em dia uma autêntica mina de ouro para o conglomerado multimédia de Murdoch. Aliás, foi por essa razão que em Agosto de 2005 o comprou à Intermix Media por 580 milhões de dólares. Os conteúdos gerados pelos utilizadores - sem receberem qualquer renumeração -, atraem mais tráfego, o que em consequência atrai anunciantes interessados em seduzir novos consumidores dos seus produtos (Fred Scharmen). A demografia, os interesses e os hábitos de consumo dos utilizadores são muito úteis às empresas para estas direccionarem melhor a sua publicidade e assim controlarem melhor os gostos do seu target. Em termos económicos, o MySpace não é mais do que publicidade, nota Nicholas Carr.

“O Meu Próprio Espaço” ou condomínio fechado?

Não estranha por isso que a News Corp. tenha tentado rentabilizar o seu espaço. Depois de em 2005 ter criado a sua própria label MySpace Records destinada à edição de CDs de artistas alojados no MySpace, em Setembro do ano passado estabeleceu um acordo com a Snocap para que as bandas pudessem vender as suas músicas directamente aos fãs. No início de Março anunciou que ia passar a autorizar que os utilizadores do MySpace inserissem vídeos de séries de televisão da Fox (outra filial sua) nas suas páginas.

A promessa de liberdade e autonomia que o site oferece tem sido, contudo, posta em causa, por uma série de medidas que revelam a verdadeira natureza do MySpace: um “condomínio fechado” ou “jardim murado” onde os “habitantes” não podem trazer qualquer objecto do exterior, ou seja, da concorrência. Por exemplo, em Dezembro de 2005 o site tentou - obviamente sem sucesso - proibir a inclusão de vídeos da YouTube, de modo a assegurar a exclusividade do seu serviço MySpace Video. Nos últimos meses, o MySpace bloqueou uma série de widgets desenvolvidos por outras empresas como a Amie Street e Indie911 (venda de música independente), Sonific (streaming de música), Revver, VideoCodeZone e Vidilife (partilha de vídeos) Imeem (playlists multimédia) Project Playlist (playlists de áudio), MOG (rede social/mashup de vídeos do YouTube). Para além disso, o MySpace também já bloqueou várias vezes os conteúdos originários do PhotoBucket, um serviço de alojamento de imagens e vídeos. Como reacção a esta tentativa de controlo do seu domínio, em Novembro passado Brad Greenspan, um dos fundadores da Intermix Media - antiga proprietária do MySpace - criou o blog CensorSpace para denunciar a censura efectuada no MySpace, tendo processado judicialmente a News Corp.

E Tila Tequila também acabou por se ver envolvida nesta guerra do MySpace contra os widgets das concorrentes. Para promover o seu primeiro single acrescentou à sua página um Hoooka, um widget desenvolvido pela Indie911 que funciona simultaneamente como leitor multimédia e plataforma de venda de música. Contudo, uma vez que esta ferramenta de marketing viral entra em concorrência directa com o widget da Snocap, a ex-modelo foi obrigada a retirar o Hoooka da sua página. Isto foi pelo menos o que Tila afirmou no seu blog pessoal, fora do MySpace: “A razão porque eu estou tão chateada com o MySpace agora é porque eles têm recentemente vindo a cercear a nossa liberdade e a retirar lentamente os nossos direitos (…) O MySpace apenas autoriza agora que usem coisas ‘MySpace’”. Devido a essa situação, ameaçou abandonar o site, tal como já o tinha feito anteriormente com o Friendster, outra rede social bastante popular nos EUA.

A política oficial do MySpace consiste em bloquear todo o software desenvolvido por terceiros que violem os seus termos de serviço, como a difusão de pornografia ou de material protegido por direitos de autor. Contudo, também se opõe aos widgets que permitem aos utilizadores venderem produtos ou fazer publicidade sem autorização prévia ou sem a assinatura de uma parceria com a News Corp.

Mas de acordo com o que uma representante do MySpace declarou ao New York Times o serviço não removeu absolutamente nada na página de Tila Tequila. Foi a própria ex-modelo que a pedido de Tom Anderson - outro fundador do MySpace - “retirou voluntariamente o material depois de se aperceber que não era apropriado para o MySpace”.

Relação de interdependência mútua

Funcionando nos moldes de um modelo de negócio típico da Web 2.0, o MySpace obtém lucros extraordinários empregando apenas um número ínfimo de trabalhadores “fixos”, dado que todo o trabalho é feito pelos utilizadores, que constroem páginas, desenvolvem widgets e adereços decorativos, etc, preenchem os seus perfis, descarregam para lá músicas e vídeos produzidos por eles. Eles sentem realmente que a página é o seu próprio espaço. Do mesmo modo, a rede social que o site oferece é muito importante para as bandas estabelecerem contactos e promoverem as suas músicas de forma viral.

Não podemos assim ignorar que as premissas do funcionamento de uma plataforma de participação como esta redes social consistem numa espécie de contrato social implícito. Qualquer esforço no sentido da privatização e da rentabilização excessiva do espaço arrisca-se a desencadear uma debandada em massa dos membros da comunidade. A confiança depositada no site vê-se assim traída. O resultado é o êxodo para outras paragens. Apesar das tentativas de controlo draconiano do MySpace, os utilizadores não estão à mercê dos proprietários da infra-estrutura. Sem as músicas e os vídeos que as bandas e os fãs colocam lá, o MySpace perderia todo o seu interesse para os anunciantes. Existe assim a necessidade de atingir um equilíbrio instável entre o controlo e a liberdade. O “efeito de rede” que leva ao crescimento exponencial do número de utilizadores pode ser facilmente quebrado.

Se esse equílibrio não é alcançado, poderão surgir outros concorrentes; não só a nível global, mas também nacional - veja-se o exemplo do Palco Principal, um novo projecto português que “tem como objectivo promover e facilitar a comunicação e interacção entre Bandas, Músicos, amantes da Música em geral e todas as entidades acessórias adjacentes.”

A “economia da atenção” não conduz necessariamente à concentração

Daí que não partilhe da opinião de Daniel Klein expressa no artigo mais recente da série Musique et numérique de que a “economia da atenção” conduz necessariamente a uma maior concentração no sector da música. O termo em causa remete para um artigo de 1997 do físico teórico Michael Goldhaber - ver entrevista em português onde se refere que numa era em que, graças à tecnologia digital, a informação em oferta se torna abundante, a atenção dos consumidores tende a converter-se no recurso económico mais valioso.

Tendo em conta a natureza não-rival (se eu a consumo, não fico sem ela) e não-exclusiva (é impossível impedir o acesso a ela ) de informação (música, vídeo, texto…), a atenção torna-se o bem escasso: os consumidores vêm-se submergidos por constantes solicitações, e apenas as empresas mais aptas a satisfazerem os interesses e as necessidades dos seus consumidores sobreviverão, justamente porque conseguem captar a sua atenção. Em contrapartida, o valor da informação é quase nulo. O dinheiro passa a estar na publicidade a bens tangíveis ou experiências que não podem ser digitalizadas. Isto é o que está a suceder no campo da música, só que as quatro grandes companhias discográficas recusam a aceitá-lo, continuando a proteger os seus conteúdos como se fossem tesouros.

Se é verdade que os dados indicam que o mercado da publicidade online tende a concentrar-se nos quatro grandes motores de busca e portais (Google, Yahoo, MSN e AOL), não é menos verdade que a margem de manobra destes sites em relação ao controlo da informação dos seus utilizadores não é totalmente elástica. Basta recordar que qualquer medida restritiva das liberdades que o Google tenta impor causa sempre um grande alarmismo junto da blogosfera. A possibilidade de a qualquer momento o site se transformar num Grande Irmão que vigia tudo e todos está sempre presente. Mas ao mesmo tempo, os utilizadores podem a qualquer momento passar a recorrer a outro motor de pesquisa, serviço de correio electrónico. O mesmo se passa com a rede social do MySpace. Na Web 2.0 o poder é sempre suave. Isto permite o surgimento de novos espaços e plataformas alternativas onde nichos bastante específicos se podem afirmar. Enquanto que no tempo do domínio das majors a diversidade cultural encontrava-se sempre circunscrita pelos mecanismos industriais dedicados à produção de “mais do mesmo” - repetição, agora ela tem possibilidade de florescer nas brechas abertas pelos grandes agregadores.

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